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Crônica: "Jura secreta", por Antônio Carlos de Souza Hygino


Atualizado em 02/06/2016 10:09:49

JURA SECRETA

Recordo-me bem das alvoradas e, com mais nitidez, do por do sol no velho cais banhado pelas águas do Rio Buranhém que se mesclavam com as vindas do oceano, separados, o rio e o mar, por um colossal recife em barreira esculpido pela natureza,  a desenhar uma das mais encantadoras paisagens por ela criadas.

Vejo-me na Ponta de Areia, local próximo ao cais. Na beira da praia, havia a tarifa –  ponto de comércio de mariscos -. Ao lado, uma amendoeira antiga cercada por  uma espécie de  banco de madeira, meio desforme e  rústico, onde as pessoas se reuniam para conversar, jogar dominó, tomar um trago e também confidenciar juras de amor.

Próximo dali, na Praia do Cruzeiro,  misturam-se  pitangueiras, mangabeiras, cajueiros e, na areia branca, os pés de guarus se espalhavam entrelaçados   e   ofertavam frutos roxeados de sabor inesquecível, sem igual. A eles se misturavam os pés de cocos de caxandó. Eu era menino e, juntamente com meus amigos, desfrutava daquilo tudo.

Adorava ir à tarifa com o meu avô comprar peixe. O preferido dele era Guaricema. Minha avó fazia uma moqueca de Guaricema frita, servida com mangabas, que até  hoje guardo na lembrança.

Numa dessas idas e vindas à tarifa, ouvir de um marujo, em tom zombador, de deboche, contar ao meu avô que “Beijinho”  tentou a morte por amor.    

Beijinho era pescador, homem do mar. Assim chamavam-no porque era de baixa estatura. Seu nome era Benjamim. Sujeito forte, valente, destemido.  Tinha dois filhos, Maciel e  Otávio,  frutos do seu casamento com Ana, conhecida por Donana, a mulher de sua vida. Havia duas coisas que realmente  amava, Ana e o mar.

Eram também pescadores e mestres na arte de navegar. Não tinham estudo, mas experiência não lhes faltava.  Tinham um saveiro batizado de “Marujo”. Da embarcação tiravam o sustento.

O casamento de mais de 40 anos findara com a morte de Donana. A dor da perda da mulher amada, modificou-lhe complemente a vida. Beijinho não mais saia de casa. Fez-se triste. Nada mais fazia sentido. Desde o passamento,  a solidão e a tristeza passaram a lhe fazer companhia.

Certo dia, seus filhos convenceram-no a visitar “Marujo”. Estava o saveiro completamente reformado. Convencido pelos filhos, resolveu, então, voltar ao mar. O barco foi guarnecido do necessário à finalidade.

No dia seguinte, bem cedinho, deixaram o cais. O veleiro rompeu a barra e  rasgou o mar. A previsão de retorno era no final da tarde. A  depender da pescaria, dormiriam no mar e voltariam no dia seguinte.

A pesca era artesanal. Não havia instrumentos de navegação, salvo a bússola. Falava mais alto a experiência, até mesmo na localização dos chamados pesqueiros em alto mar.

Naquele dia tudo estava correndo muito bem. Um pesqueiro foi localizado e farta era  pesca. Animados, resolveram pernoitar.

Caía a tarde! As estrelas, ainda  meio tímidas, começavam a piscar  no firmamento...

De repente,  o tempo se transformou. O vento sul passou a soprar impiedosamente, cujas rajadas violentas despertaram a ira de Netuno, deixando o mar revolto.  A   natureza chorava em forma de tormenta e seus gritos se revelavam nos estrondos estarrecedores  dos  trovões. Por vezes cuspia labaredas de fogo  a   iluminar, por breves segundos, o breu da noite.  Em meio a esse cenário, o saveiro desgovernado bailava, ora para a esquerda, ora para a direita, ora para cima, ora para baixo,  sem saber ao certo para onde ir.  Dentro dele, os homens desesperados, rogavam  a Deus a salvação.

A chuva apagou as duas lamparinas que se encontram do lado de fora do convés. Tudo ficou turvo. Tateando em busca de uma delas, Beijinho desequilibrou-se e caiu ao mar. Desesperado, mestre Otávio lançou-se ao mar em fúria para socorrer seu velho pai. Seu guia era a intuição. Do saveiro, com uma lanterna, Maciel norteava a Otávio.  

Os gritos aflitos deram a Otávio a localização de Beijinho. Agarrado ao pai, tentava bravamente levá-lo a bordo, mas não conseguia, devido não só às circunstâncias, mas à resistência dele em querer morrer no mar.  Sem alternativa, desferiu-lhe um soco, vindo ele a  desmaiar. Maciel arremessou-lhe  uma boia amarrada numa corda. Agarrou-se à boia e puxado por Maciel, finalmente veio a  bordo trazendo consigo o pai.

Exausto,  no convés, agarrado ao pai, viu a noite lentamente passar.  O dia  amanheceu. O  tempo  havia melhorado. Beijinho  acordou. Ainda assustado, o mestre Otávio lhe perguntou: “meu pai, por que o senhor dizia aos grito que queria morrer”?  Ao que ele respondeu: “porque não cumprir a jura que fiz a Ana,  a mulher que sempre amei e amo,  de  partir antes dela para esperá-la no céu,  na casa de Deus e, num cantinho,  revivermos o nosso  grande amor”.

Em silêncio, atentamente, meu avô  a tudo ouviu e não fez qualquer comentário.  Pensei comigo como podia aquele homem desdenhar do amor?  Afinal,  quem nunca quis morrer por amor? E tenho, até hoje, que só desdenha do amor quem não conhece o amor. Amar é preciso. Viver não é preciso.

 Antônio Carlos de Souza Hygino
Juiz de Direito


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