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"Dinastia jurídica", por Luiz Holanda


Atualizado em 07/12/2015 11:39:31

Existem vários sentidos para a palavra “jurídica”, sendo o mais comum o que se relaciona a forense, judicial ou judiciário. No caso em tela significa profissão, notadamente para os que escolheram a magistratura como um modo de servir. E quando essa escolha é feita por um grande número de pessoas integrantes de uma mesma família, forma-se uma dinastia, existente em quase todas as profissões.

Um acontecimento histórico, que bem simboliza esse significado, aconteceu na Câmara de Vereadores de Salvador, nos primeiros dias deste mês, quando o desembargador Jatahy Fonseca Júnior foi homenageado com a Medalha Tomé de Souza pela Câmara Municipal de Salvador. O projeto de resolução, que ensejou a outorga da medalha, foi de autoria do vereador Geraldo Junior, aprovado por unanimidade pelos edis soteropolitanos.

Ao evento compareceram inúmeros desembargadores, juízes de direito, advogados, juristas, professores universitários e parentes do homenageado. O destaque foi para o seu pai, Edmilson Jatahy Fonseca, ex-presidente do Tribunal de Justiça da Bahia. Também presentes o magistrado federal Cesar Cintra Jatahy Fonseca, seu irmão, a esposa Silvia Henrique Mendes Jatahy Fonseca e os filhos do agraciado

Em sua carreira, Jatahy foi juiz em várias comarcas, sempre respeitado pelos jurisdicionados, como pessoa e como magistrado. Discreto, mas não eremita, fez por merecer o respeito e o acatamento de seus conterrâneos. Magistrado emblemático, jamais se ouviu falar de qualquer fato ou conduta que pudesse macular a sua biografia. De postura algo reservada, as referências sobre sua pessoa, tanto como cidadão como na qualidade de juiz, sempre foram as melhores possíveis.

Em seu discurso de agradecimento Jatahy relembrou sua infância, principalmente quando, ainda criança, acompanhava o pai em suas visitas a Salvador. Recordou que, apesar de menino, era reconhecido no Fórum Ruy Barbosa porque ele e o pai andavam pelas diversas seções do fórum, cuja beleza arquitetônica encantava o magistrado menino. Recordou a Rua Chile, a famosa casa de comércio Sloper e os passeios no Elevador Lacerda e no Plano Inclinado.

Cheio de recordações, lembrou de Florinda Santos, a Mulher de Roxo, uma lenda urbana de Salvador.  Personalidade folclórica, Florinda jurava ter sido rica. Gutemberg Cruz escreveu que ela, sempre de roxo, com roupas que lembravam o hábito usado pelas freiras, costumava perambular e dormir pela Rua Chile e imediações. Andava descalça com longas mantas, um terço na mão e um enorme crucifixo. Tudo isso lhe dava um ar de santa, meio louca, meio andarilha e meio mendiga. Mesmo assim, foi imortalizada na Galeota Gratidão do Povo, painel de 160 metros quadrados pintado por Carlos Bastos, no plenário da Assembleia Legislativa.

Jatahy relembrou tudo isso com uma certa nostalgia, tanto pelo menino que se fez advogado, como pelo advogado que se tornou juiz e depois desembargador. Seu discurso nos fez lembrar que numa certa idade a alma da criança que fomos passa a cooperar nos sentimentos que sentimos tempos depois, não apagando as lembranças do passado, mas refundindo-as numa nova criação, mais experiente, porém original.

*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.


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