• Publicações
Notícias

Sentença em verso de juiz de Senhor do Bonfim será destaque no Fantástico


Atualizado em 14/04/2018 23:42:51

Uma decisão do juiz Teomar Almeida de Oliveira, da 1ª Vara Criminal da comarca de Senhor do Bonfim, será tema de matéria do programa Fantástico, da Rede Globo. A sentença em versos rimados, sobre quem era o verdadeiro dono de uma sanfona, já havia ganhado destaque na imprensa baiana.  O litígio envolveu dois sanfoneiros, que diziam ser os proprietários do instrumento.

As gravações foram feitas nesta última semana em Senhor do Bonfim, com sanfoneiro o Nivaldo do Acordeon, que ganhou a causa; com o Delegado de Polícia, Felipe Neri, e o magistrado, que prolatou a decisão em prosas, denominada informalmente de “Habeas Fole”, para tirar a sanfona da cadeia. A matéria, que pode ir ao ar neste domingo, também terá a participação das cantoras paraibanas Lucy Alves e Elba Ramalho.

A disputa começou quando o sanfoneiro Renato Cigano, que mora em São Paulo, foi até a delegacia de Senhor do Bonfim para reivindicar a posse do instrumento usado por Nivaldo Amaro de Araújo, o Nivaldo do Acordeon. Ele teve a safona roubada há três anos e, após ver a sanfona de Nivaldo nas redes sociais, acreditou ser a mesma furtada. A sanfona foi “presa” na delegacia até o final da apuração dos fatos. Nivaldo apresentou documento de compra e venda, comprovando a propriedade da mesma. Com a prova, concluiu-se o processo.

Admirador do som do instrumento e fã de Luiz Gonzaga e da cultura musical nordestina, o juiz Teomar disse que a ideia da poesia da Sanfona surgiu a partir de todo um contexto histórico da origem da sanfona, inserida em uma contenda jurídica, disputada pelos dois grandes sanfoneiros.

Natural do município de Nova Olinda-PB, ele ingressou na magistratura baiana em 2013, inicialmente na comarca de Jacaraci, e depois Itapicuru, com substituição em Coração de Maria. Em abril de 2017, chegou a Senhor do Bonfim, e, em menos de um ano, foi agraciado com o título de “cidadão bonfinense”, pelos vereadores da denominada "capital baiana do forró”.

 

Decisão

 

No embalo da emoção
Sanfoneiros pedem aquela sanfona velha
Que um dia já foi bela
Hoje ela é castigada, afastada da canção
Condenada a viver gelada
No banheiro da prisão

 

E o sanfoneiro engaiolado
Sem a voz, os dedos e o pulmão
Distante da sanfona velha
Seu maior bem de estimação
Espera que o Juiz diga qual o querelado
Que levará a sanfona do povo junto ao seu coração

 

Não há mais tempo de espera
Para uma decisão que preste
O povo está desolado
Por ver o maior símbolo do Nordeste
Que despontou numa tapera
Como um pássaro engaiolado

 

De tão simples instrumento
Das cantigas do sertão, xote, xaxado e baião
Passou à relíquia sem documento
De disputa encarecida, cobiçada no momento
Que chega a envergonhar o nosso Rei Gonzagão
Quando disse outro dia que o jumento é nosso irmão

 

Pobre sanfona do povo
Pagando o que não deve
Como qualquer prisioneiro
Presa por ser a rainha do Nordeste e do Sertão
Não pode mais permanecer
Como adorno de banheiro de masmorra da prisão

 

Não sei quem é o proprietário
Mas, o possuidor do melhor documento (fls. 62)
É presumido o signatário
Dono daquele instrumento
Ficando com o direito
De recebê-la no peito como fiel depositário

 

Não decido por decidir
Mas, por a lei me permitir (art. 120, § 4º, CPP)
Colocar em suas mãos
Que outrora foi tirada, do povo e dos cidadãos
Sem piedade e compaixão
Aquela sanfona velha que imortalizou Gonzagão

 

Nilvado o direito é seu, como fiel depositário
Visto o seu opositor não ter provado o contrário
Até que se finde a contenda
Delegado me atenda
Como da outra vez foi buscar
A bela sanfona do povo, vá agora entregar

 

E para finalizar
Hei por bem declarar
Que fui competente para buscar
Sou também para entregar
Cumpra-se, sem titubear.


Associação dos Magistrados da Bahia - Fórum Ruy
Barbosa, 4º andar, sala 413. Salvador, BA
Tel. 71 3320-6950