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Homenagem – De filho para pai

Tivemos início, teremos fim. Essa é a regra básica da vida. Sabemos que assim será, mas, chegado o fim, parece que nunca soubemos como seria. Difícil demais a despedida. A relação entre pai e filho é marcada por amor, conforto, confiança, aprendizado, respeito e, às vezes, temor. Com meu pai, tive tudo isso, mas fomos além. Ao meu lado, tive o maior contador de piadas que conheci. Um conversador! Mas tive mais, meu pai foi o maior torcedor do meu time que vi na vida! Aliás, claro que o meu time seria o mesmo dele! E não somente meu, mas de minha mãe, dos meus irmãos, da minha filha e dos meus sobrinhos, claro! E acha pouco? Também foi das crianças da minha rua.

O cara mais fanático pelo “Bahêa” que vi na vida, no auge do seu amor tricolor, cravou: “Minha mãe me deu a vida, o BAHIA me deu motivo para viver!” Que cara louco!!! Kkkkkkkk. Ninar filhos e netos(as)? Só sabia uma “cantiga”, o hino do “Esquadrão de Aço”. E como esquecer as felizes tardes de Fonte Nova com ele e meus irmãos Adriano e Peu? E também as crianças da minha rua que ele fazia questão de levar para formar a paixão pelo time e firmar o amor pelo nosso BBMP. Que maravilha aquele sorvete de côco com cajá e voar no céu quando nosso “Campeão dos campeões” fazia um gol … do céu à queda em seus braços, o tempo passava em câmara lenta … o meu sorriso e o grito do meu pai duravam uma eternidade. Plena felicidade. Síntese de um amor entre pai e filho, robustecido pelo nosso time! E eis que chegou em nossa vida o dia 19 de fevereiro de 1989, pura tensão. “Será que conseguiremos, pai? Claro, meu filho! Chegou o grande dia, é hoje! Bora Bahêêêaaa!!!”. Era a final do campeonato brasileiro de 1988, que acabou no ano seguinte. Estádio Beira Rio, Porto Alegre. O nosso Tricolor contra o Inter de Taffarel. O resultado, o mundo já conhece. Mas não o que se passou na modesta sala da casa 43, Travessa Santa Sofia, Bairro Stiep, em Salvador. Ali estava ele, jogo inteiro sentado ao chão, encostado na parede, nós espalhados ao chão, eu, meus irmãos e os amigos da rua, que não tinham como deixar de assistir ao jogo na casa de “Tio Luciano”, nosso mentor azul, vermelho e branco. Apito final, 0 x 0 e título nosso, ele tinha razão, era “hoje”! Lembro que não conseguiu se levantar, apenas ergueu os dois braços e chorou como criança, quando pulei de alegria, vi que uma pilha de meninos se formou em cima dele. Pulei também, claro! Apesar de crianças, soubemos reconhecer quem, antes do time, nos proporcionou aquele momento. Que dia!

Mas a paixão dele, que também herdei, era por esportes em geral. Quando me tornei nadador, adivinhe quem era meu maior torcedor nas arquibancadas? Como outro atleta, entre idas e vindas ao lado das piscinas, depois de cada longo e alto assobio, vinha a frase: “Vumbora, Luuuuuu”!!! Nessa parceria, celebramos algumas conquistas.
Já em 2007, fomos aos Jogos Pan Americanos, no Rio de Janeiro, e torcemos demais em todas as competições que assistimos. Que Show!

Mas ele foi além. Como se não bastassem tanta alegria e companheirismo, ainda tivemos (eu e meus irmãos), grandes e constantes exemplos de honradez e caráter. Ficarei apenas em dois exemplos. Estava na barriga de minha mãe, quando eles e meu irmão mais velho iriam se mudar. Vender o pequeno apartamento e comprar uma casa para esperar o novo membro da família. Apartamento vendido “de boca” pela manhã e proposta tentadora e bem superior à noite. Jovem e começando a vida, veio a resposta: “Desculpe, mas já vendi”. Palavra dada, palavra cumprida. Aprendi, pai!

Depois, em dificuldade para criar 3 filhos, orçamento apertado, entra em uma Comissão de licitação e consegue uma função para incrementar os rendimentos. Coisa boa. Até que, como engenheiro civil que era, chega em suas mãos um termo aditivo visivelmente desnecessário. Aumentaria o custo da obra apenas para que alguns inescrupulosos desviassem verba pública.

“- Não posso assinar, não há necessidade.
– Mas nós precisamos que você faça isso!
– Já disse que não posso.
– Desse jeito, vamos ter que t tirar …
– Não vão precisar, acabei de sair.”.

Aprendi de novo, pai. Valeu! Deixe comigo.

E assim um pouco da nossa história foi contada. Defeitos? Ele era cheio. Mas, por que lembrar disso agora, se sua missão foi tão bem cumprida? Ficam os seus ensinamentos e a herança moral deixada, Vovô Gordinho! Sua bênção e que Deus te receba nessa passagem. Vai e pinta nosso céu também de vermelho, pois agora é a sua casa! Para sua família e quem te conheceu, fica uma saudade que, sabemos, nunca vai deixar nossos corações. E fique tranquilo, sua amada esposa Nídia, o seu “Bem”, será tratada como Rainha pelos seus filhos, netos e netas. Até mais e o meu muito obrigado, ansioso, à espera do nosso próximo abraço.

Beijos do seu LUCIANO RIBEIRO GUIMARÃES Filho.